O projeto tem como objetivo qualificar a pessoa idosa com a técnica do bordado
A Casa de Sossego da Vó Tereza desenvolve o projeto Bordando Histórias, iniciativa que utiliza a técnica do bordado como ferramenta de aprendizado, expressão e valorização das histórias de vida de pessoas idosas. O curso reúne 21 participantes, que, ao longo de 12 meses, aprenderão pontos e técnicas do bordado e, ao final do processo, transformarão suas próprias trajetórias em arte.
Iniciado em agosto, o projeto vai além do ensino de uma técnica artesanal. A proposta é construir um espaço de convivência e acolhimento, no qual as participantes possam compartilhar experiências, fortalecer a autoestima e ampliar o sentimento de pertencimento. Para o presidente da Casa de Sossego, Afrânio Reis, a iniciativa também contribui para dar visibilidade e protagonismo à pessoa idosa.
“Esse espaço que a gente está criando dá uma chance para as pessoas da terceira idade. Essas 21 pessoas idosas vão expor seus trabalhos, contar suas histórias de vida para todos verem. Quando a gente tornar isso público, a inclusão social se torna real. A Casa dá para elas uma oportunidade de acreditarem em si mesmas, e isso é muito importante para a gente”, afirma.
O curso é dividido em 24 módulos e, durante a primeira metade do processo, as participantes aprendem os diferentes pontos do bordado. Paralelamente às atividades, um psicólogo e um profissional de acompanhamento oferecem assistência às idosas. A proposta é que, ao longo do percurso, cada participante compartilhe sua história de vida, que será registrada e posteriormente transformada em uma produção artística.
A partir dessas narrativas, as participantes aprenderão a transferir para o tecido elementos relacionados às próprias trajetórias. Ao final do curso, os trabalhos serão reunidos em uma exposição, dando forma às histórias construídas ao longo dos 12 meses.
As atividades são realizadas duas vezes por mês e voltadas a pessoas idosas em situação de vulnerabilidade. As 21 participantes foram selecionadas após manifestarem interesse em uma oficina realizada antes da oficialização do curso.
Segundo Afrânio, a construção da iniciativa também partiu do diálogo com as próprias idosas. “A participação ativa das nossas idosas é muito importante, por isso que a gente vê o sucesso dos nossos cursos”, afirma.
A instituição, sem fins lucrativos, está associada ao Conselho Municipal de Defesa dos Direitos da Pessoa Idosa, vinculado à Secretaria Municipal da Família e da Assistência Social (Semfas). A parceria foi estabelecida a partir de edital de chamamento público realizado pela Semfas, em conjunto com a Prefeitura de Aracaju e o Conselho, por meio do Destina Aju.
Para a presidente do Conselho Municipal dos Direitos da Pessoa Idosa, Maria José Silva Matos, iniciativas como o Bordando Histórias contribuem para combater a invisibilidade da população idosa e estimular seu protagonismo.
“A gente trabalha justamente para tirar o idoso da invisibilidade. E faz parte da nossa alegria esta Casa ter esse olhar vultoso para a pessoa idosa. No momento que o presidente Afrânio me enviou este projeto, eu fui às lágrimas, porque, aos 75 anos, ele me fez recordar a minha avó paterna que me ensinou a bordar. É nisto que nós estamos trabalhando, é isso que a nossa prefeita Emília e o secretário Luciano têm os olhos voltados: o protagonismo da pessoa idosa. O Bordando Histórias vai ter uma amplitude magnífica”, afirma.
Maria José também ressalta a importância de as famílias reconhecerem as capacidades e potencialidades das pessoas idosas. Para Afrânio, a parceria com o Conselho representa uma oportunidade de ampliar a visibilidade da instituição e fortalecer o trabalho desenvolvido pela Casa de Sossego.
“A partir do momento que nós começamos a fazer parte do Conselho da Pessoa Idosa, nos deu grande oportunidade, principalmente de visibilidade e também através de recursos. A nossa casa tem muito a agradecer à Prefeitura de Aracaju, à Secretaria Municipal da Família e da Assistência Social (Semfas) e ao Conselho da Pessoa Idosa”, reconhece.
Bordado como expressão
No Projeto Bordando Histórias, o artesanato é utilizado como uma forma de expressão e de conexão com as próprias memórias. Para as participantes, o aprendizado também representa uma oportunidade de ocupar o tempo, desenvolver novas habilidades, fortalecer vínculos e descobrir novas possibilidades.
Aos 75 anos, Maria do Carmo Nascimento decidiu aprender mais sobre o bordado, técnica com a qual teve contato pela primeira vez por meio do projeto. Ela conta que se sente incentivada a participar das atividades oferecidas pela Casa.
“Me sinto feliz com essa oportunidade. Tive interesse em vir para sair de casa, fazer alguma coisa e aprender. Eu já frequentava a Casa e aqui eu gosto de tudo, é perfeito.”
Aos 60 anos, Maria da Conceição Reis Santos já praticava bordado em casa, mas decidiu integrar o grupo para ampliar os conhecimentos. Para ela, participar das atividades também representa uma forma de manter uma rotina de aprendizado.
“Estou tendo uma tarde muito gratificante e estou gostando muito. Se tiver mais cursos, eu virei. Sou aposentada, quando estiver em casa sem fazer nada, vou bordar.”
Moradora do Mosqueiro, Gildete Conceição dos Santos, 73, também já bordava com as amigas. Ela decidiu participar do curso para ocupar a mente e ampliar o círculo de convivência.
“Nós podemos aprender muitas coisas que ainda não sabemos. Gosto muito daqui e penso em nunca mais deixar. Se tiver outros cursos, eu entro”, completa.
Frequentadora da Casa de Sossego há quatro anos, Selma Santos Pinto, 76, acredita que a disposição para aprender não tem idade. Para ela, participar do projeto representa a oportunidade de realizar algo que não conseguiu fazer quando era mais jovem.
“Eu estou adquirindo uma coisa que eu não consegui fazer quando eu era mais jovem. E hoje, aos 76 anos, eu estou tendo essa chance que eu quero aproveitar o bastante. A gente tem uma ideia de que, porque é velha, não vai mais aprender, não tem mais condições. Mas eu não acredito nisso, pois, nessa idade que tenho, estou aprendendo muita coisa. Quando a gente acha pessoas igual Afrânio, que incentiva, trabalha com vontade, com coração, com prazer, a gente cresce e consegue fazer. Enquanto eu puder fazer essas coisas, eu estarei fazendo.”
Desde criança, Josefa Maria da Conceição, 62, mantém interesse pelo artesanato, uma habilidade que, segundo ela, foi influenciada pela avó. “Tudo que vejo eu gosto de aprender, gosto de tentar fazer. E eu só tenho que melhorar no artesanato, porque é maravilhoso.”
Josefa integra o grupo da Casa de Sossego há três anos, quando começou a participar das atividades propostas pela instituição na Reserva Extrativista das Mangabeiras. Com a mudança para a atual sede, ela afirma ter encontrado um espaço de convivência que considera especial.
“Depois que viemos para cá, se tornou o melhor lugar do mundo. Quem vem aqui não quer voltar mais, quer vir todas as vezes. Afrânio sempre que pode fazer algo por nós aqui, ele faz. Ele capricha de um jeito que parece que é só pra ele, mas não é, é pra todas, ele tem o maior prazer do mundo.”
Casa de Sossego
Fundada em 2016, a Casa de Sossego da Vó Tereza atua há quatro anos no bairro São José dos Náufragos, onde funciona sua atual sede. A instituição oferece serviços socioassistenciais, incluindo acompanhamento psicológico, oficinas lúdicas e pedagógicas, empreendedorismo social, atividades de autoconhecimento e palestras.
O atual espaço da Casa de Sossego Vó Tereza foi inaugurado em 2022. O projeto arquitetônico, inspirado no formato de um círculo, foi elaborado pelo arquiteto e presidente da instituição, Afrânio Reis. A construção foi viabilizada com recursos do fundo do Destina Aju, após a instituição ser contemplada em edital público lançado pelos Conselhos Municipais dos Direitos da Criança e do Adolescente e da Pessoa Idosa.












