No dia 8 de fevereiro de 1926, um dos cartões-postais mais reconhecidos de Aracaju, o Mercado Municipal Antônio Franco, nasceu como um símbolo da “modernidade” que se instalava na capital sergipana. O mais velho componente do complexo de mercados aracajuano foi projetado para ser um modelo, a base de uma metrópole higienizada e organizada, e, prestes a se tornar centenário, recebe o afeto de quem vive ou chega em Aracaju.
De um centro de abastecimento que dava suporte à logística portuária e ferroviária, assumiu a vocação de sala de estar da cidade, funcionando como um polo de economia criativa onde o artesanato, a gastronomia regional e a arquitetura eclética preservada sustentam um monumento vivo da identidade sergipana.
Segundo o professor e historiador Osvaldo Ferreira Neto, especialista da história de Sergipe e de Aracaju, o mercado, que mais tarde levaria o nome de seu financiador, Antônio Franco, não nasceu apenas por necessidade comercial, mas por uma demanda de ordenamento urbano. A feira que ocupava a área entre os palácios na Praça Fausto Cardoso, e se estendia pela avenida Rio Branco, desde os primeiros anos de Aracaju enquanto capital, começou a gerar reclamações sobre resíduos de alimentos, animais e odores. Por isso, na década de 20, durante a gestão de Maurício Graccho Cardoso, começou a ser debatida a construção de um grande mercado público, que pudesse abarcar toda a feira.
“O mercado tem uma estrutura, um horário estabelecido em que, durante todos os dias da semana, ele estará aberto, e a feira não. A feira, quando ela passa para o mercado, está todos os dias à disposição da população, da troca, dos permissionários, e também do comércio popular”, detalha o historiador.
À época, no entanto, a administração municipal não dispunha de recursos para arcar com a construção do empreendimento, e a solução veio através de uma parceria com a iniciativa privada. O industrial Antônio Franco financiou a obra e o direito de uso do espaço, contratando o engenheiro Thales Ferraz, recém-chegado do exterior, para trazer o que havia de mais atual na arquitetura europeia.
“No dia 8 de fevereiro de 1926 é inaugurado o Mercado Modelo, não era mercado Antônio Franco, que só vai passar a se chamar assim mais tarde, inclusive, quando um dos seus financiadores veio a falecer. Você vê uma estrutura, inclusive, muito moderna para a época, com um relógio, com uso de alvenaria, com uso de estruturas de ferro, e tudo isso era moderno”, completa o professor Osvaldo.
Além de modernizar a paisagem da capital, até os anos 30, o mercado era o ponto final da parte mais urbanizada da cidade ao Norte, definindo os limites do Centro de Aracaju dentro do chamado Quadrado de Pirro, o projeto original de Aracaju. Além disso, estava instalado em uma localização estratégica que amarrava os principais modais de transporte da época.
“O mercado estava num lugar estratégico na década de 20. Você tinha aqui à frente o porto de Aracaju, o trapiche, toda uma estrutura marítima e você tinha vizinha, que foi inaugurada na década de 10, a estação ferroviária. Onde hoje as pessoas dançam forró na praça Hilton Lopes, no Forró Caju, ali ficou a primeira estação de trem até a década de 50”, destaca o historiador.
De acordo com o historiador, o mercado também serviu de baliza para as ruas adjacentes, e acabou influenciando na configuração das ruas e do comércio popular.
“A partir da construção do mercado e da sua ampliação, claro que toda a região passa por um processo de urbanização considerável, com pavimentação e reorganização das ruas. Você tem um comércio popular que se estabelece nas ruas Santa Rosa, no Beco dos Cocos, na José do Prado Franco, na Florentino Menezes e na Apulcro Mota. Então, você tem um processo de crescimento da cidade, um crescimento econômico”, completa.
O relógio de quatro faces e o ecletismo
A estratégia de tornar Aracaju uma vitrine de modernidade pedia um monumento à altura. O maior símbolo desse projeto é o relógio de quatro faces que, mesmo na iminência de seu centenário, segue como o coração do prédio e símbolo da capital sergipana.
“Ele é um dos relógios que havia no Quadrado de Pirro no século XX e que até hoje permanece como um importante monumento histórico e moderno da cidade”, destaca o historiador Osvaldo Ferreira Neto.
Apesar de não ser possível precisar de onde veio o relógio, devido à falta de recibo para a comprovação, o professor aponta para origem europeia. “Provavelmente deve ter vindo da Inglaterra, de onde vinham muitos relógios semelhantes no Brasil. Em 1926, o país não estaria produzindo estruturas como essa. O que foi feito ali seguia um padrão europeu”, afirma.
Mas a influência estrangeira vai além do relógio. A arquitetura do mercado segue o estilo eclético, inspirado no padrão europeu. Em um dos portões, ainda pode ser encontrada a face esculpida de uma figura da mitologia, Hermes, símbolo do comércio, e alusões à caça e à colheita “para representar o que era negociado no mercado”, segundo o professor Osvaldo.
Diferente de outros mercados da época, que eram construções simples, o Antônio Franco foi concebido com estrutura que unia alvenaria e ferro. Para o historiador, essa beleza era uma forma de demonstrar poder. “Há 100 anos atrás, essa estrutura era o que se tinha de mais moderno e avançado para a época. Aqui recebeu arte e, quando você tem uma obra pública, eu gosto sempre de parafrasear a professora Verônica Nunes, quando se ganha o tom da beleza, da arte e do que se tinha de melhor na arquitetura, tá querendo representar ali ostentação, poder, porque a arquitetura representa poder”, argumenta.
Do abastecimento ao turismo
Criado para seguir um perfil de abastecimento, o Mercado Antônio Franco se tornou um atrativo turístico por causa da sua história. Com o passar das décadas, outras estruturas foram construídas em suas adjacências para dar conta do volume de negócios, como é o caso do atual mercado Thales Ferraz e de estruturas improvisadas para a venda de verduras e pescados.
Mesmo com essa expansão, o que ia se tornando um complexo chegou ao limite nos anos 90, beirando a interdição pela vigilância sanitária. Daí, surgiu a necessidade de uma reorganização. Segundo o professor Osvaldo, a reforma assinada pela arquiteta Ana Libório deu um novo propósito ao prédio centenário. Os antigos boxes deram lugar ao artesanato sergipano e o terraço foi ocupado por restaurantes.
Com a reorganização, o setor de hortifrutigranjeiros, a feira do Paraguai, pescados, carnes, aves e roupas, passaram a ter um mercado novo, hoje conhecido como Mercado Maria Virgínia Leite Franco. Já ao espaço que corresponde ao Mercado Thales Ferraz, foram destinados os doces, queijos e ervas, e criada uma passarela ligando-o ao Antônio Franco. Na visão do historiador Osvaldo Ferreira Neto, essa mudança não retirou a função de abastecer do Mercado Antônio Franco, mas deu a ele uma nova dimensão.
“Ele abastece um pouco com artesanato, ele abastece como atrativo cultural, turístico da nossa capital. Você não tem condições de ver uma pessoa de fora e não trazer no mercado Antônio Franco para conhecer o artesanato, a gastronomia e as nossas belezas culturais e históricas”, afirma.
Essa vocação turística é confirmada no dia a dia por quem apresenta a cidade. Aracajuano, o guia de turismo Arlindo dos Anjos sempre inclui o complexo em seus roteiros. Recentemente, ao conduzir uma família de Osasco (SP) pelo Centro, ele reforçou a relevância histórica do local.
“Os mercados centrais de Aracaju, o Antônio Franco, Thales Ferraz e o Virgínia Leite, são um marco para o turismo e para a cultura de Sergipe, para todo o nosso desenvolvimento cultural, comercial e histórico”, apontou.
A visita foi apreciada pelo grupo paulista composto por Luciana França, Idelma Knop, Luiz Knop e Delano Câmara França. Encantado com a estrutura, Luiz destacou a percepção de vigor da cultura aracajuana.
“Já estou tomando uma boa impressão de desenvolvimento, modernidade, riqueza que se percebe na região, em tudo que você vê. O Mercado também mostra um pouco isso, a produção que se tem e o artesanato”, disse Luiz.
Para o professor Osvaldo Neto, o Antônio Franco é o coração de um complexo de mercados organizados e setorizados, a “sala de estar” da capital sergipana. “Para mim, é o melhor lugar de Aracaju. É uma sala de estar com tudo aquilo que pode oferecer a você. Então, aqui você vai oferecer a boa gastronomia, aqui você vai oferecer o bom artesanato, aqui você vai oferecer boas frutas, e aqui você vai oferecer o que tem de melhor da nossa cidade”, compara o historiador.
Osvaldo menciona a celebração deste centenário como o reconhecimento de um símbolo de transformação constante.
“Admiro muito a cidade de Aracaju ter um espaço como esse, e que possa celebrar mais e mais 100 anos. Eu acho que o centenário do Mercado Antônio Franco representa a celebração de parte da identidade da cultura aracajuana e sergipana”, conclui.






